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Pelotas, RS, Brazil
Atriz, aventurando em produções artísticas independentes e dependentes. Bacharel em Interpretação Teatral (UFSM). Professora de Séries Iniciais (Magistério). Gestora Geral do Teatro do Chapéu Azul - Realizações culturais. Idealizadora do PIQUENIQUE CULTURAL e do FESTIVAL DE INVERNO DE PELOTAS. Há também o CENARUA - festival de Artes Cênicas na Rua em parceria com a Dalida Artísticas Produções.Estudou Desenho Industrial e Vestuário - não se formou, mas aprendeu bastante. Aprendiz de cartomancia, astrologia, numerologia e algumas outras "ias". Fala demais. Ri e chora quando necessário. Não se conforma com algumas coisas no mundo. Já tentou se envolver em política, religião e futebol. Cozinha bem. Gosta de beijos longos e abraços quentes. Nunca saiu do Brasil, mas quer dar umas voltinhas. Pouco saiu do RS. Morou 9 anos em Santa Maria/RS. Gosta de escrever e cantar. É filha única. O ócio a interessa também.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Não temas meus temas


Assustado, o pacato menino,
não quer ser alvo de versos
E paira, dúbio e perplexo,
diante de verdades rimadas.
Sei bem que os desatinos
que dissolvo em palavreados
podem espantar peregrinos
com almas atormentadas.
Calma, criança emburrada
A ti entreguei o que possuo:
um tanto de eco cálido
um pouco de quase futuro.
Tentei, mas não há o que fazer
Tudo é tudo e em demasia
Tudo é tudo a se derramar
com ares de poesia.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Sem título II

Já podes requisitar teus direitos autorais:
São de tua autoria minhas inspirações mais banais.

Eu cá, tu lá


Eu cato lá
onde deves estar
algumas estrelas
perdidas...
faço
um colar cintilante
e parto errante
pra vida.

Sem título I

Não deixei nem um bilhete
nem flores num ramalhete
pra não chamar atenção.
Desapareci por completo
da tua vista parti reto
como do teu coração.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Janeiro me deixou uma carta...

Minha cara,
Despeço-me hoje de ti. Eu, que cheguei tão cheio de vida e esperança, acabo hoje. Eu sei que no meu começo as coisas estavam estranhas, teu coração cheio de interrogações e expectativas, teu trabalho em encruzilhadas constantes... Mas, olha: vencemos juntos! Vou embora certo de que vali a pena e isso é fundamental para mim, primeiro mês do ano, o galã da novela da vida.
Olha só, ao que te propuseste de maior e que é a mais importante para todo o resto... Nisso foste soberana. O caminho é longo, mas, olha, janeiro já foi, meu bem! Um dia de cada vez e de novo verás a vida se ajeitar. Conseguiste. E não fui um mês fácil, como bem sabes, querida.

Sei que não fui muito generoso contigo em alguns dias. E em alguns assuntos.
Mas, veja, aquela água salgada que saía dos teus olhos te ajudou a perder uns quilinhos! O fato é que eles se foram e querias tanto que se fossem, então isso é que importa! Tua cara está melhor, novos cabelos, os dentes se ajeitando e parece que deu certo todo aquele tempo com ferros na boca.
Ah, tirar os ferros parece-me bem simbólico, pois falaste mais ao mundo sobre ti neste mês do que talvez tenhas falado nos últimos cinco anos. E teus sorrisos desabrocharam também. Alguns estão assustados: acostumados que estavam com uma figura sorumbática e um tanto triste. Foste assim por um tempo, não eras feliz e isso se estampava em ti. Eram as más companhias, como sabes. Cheguei pra te libertar daquelas trevas a que estavas presa.
Então, o que quero dizer, minha cara, é que conseguimos transformar uma tristeza [é, aquela master que te tirou o sono] em coisas positivas! Já te disse que não há culpa, que a vida é movimento, que cada coisa aconteceu como deveria acontecer. Embora tu desconheças a coisa exata que levou ao vácuo. Tu não sabes e talvez ninguém saiba. E agora, que me vou, o que adianta saber? Parece que não mais, já que dia após dia eu desfilei mudo sobre isso, não te apresentei nem uma resposta sequer e o futuro te dirá porque agi assim. De mim, não sairá qualquer aceno, estou indo embora sem olhar pra trás: comigo levarei este segredo. E é bom te ver já sem entusiasmo em descobri-lo. Te mostrei outras portas: abra-as.

Como te disse: olha quanta coisa bonita brotou em teu jardim enquanto eu o cultivava! Relembraste tua escrita e quase que por necessidade desnudasse palavras. Valeu a pena? Sim, te redescobriste nessa arte. A poesia te salvou de gritos maiores. Piegas, devo dizer, escrever poesias para amores que nem se concretizaram, que pareciam mais uma nuvem do que qualquer outra coisa, mas válido. Há quantos anos não escrevias sobre paixão, amor, saudade, adeus? Há muitos!
E sabes bem por quê: nada disso existia na tua existência. Vivias uma coisa fria, sem significado arrebatador, era cômodo e sem arroubos. Era chato o teu coração. E eu te trouxe a gana dos que pretendem se entregar ridícula e romanticamente à experiência de amar novamente. Sim, fui o mês que concentrou tantos sentimentos que nem sei como aguentaste. Fui cruel, neste ponto, admito. Mas fiz o que deveria ser feito: te sentes viva e percebeste tanto sobre ti que sei que o que pareceu ruim se reflete em algo bom. Fui "o" cara nesse sentido. Se dezembro te abriu o peito, eu te abri os olhos.

E nem reclames: te proporcionei encontros preciosos... contigo, com teus amigos queridos, com novos amigos, com a realidade, com teu coração partido. Olhaste cara a cara cada coisa que se apresentou e disseste: Sim, esta sou eu! E por onde eu andava?
Não sei, minha querida, mas estavas lá, esperando alguma coisa que nem mesmo acredito que tu consigas nomear. O fato é que de novo percebes que podes te mostrar ao mundo como és, sem aquele peso que vinhas carregando, sem as dores acumuladas de uma vida medíocre onde propiciavas alegria aos outros enquanto teu coração e tua alma pereciam. Viveste assim os últimos anos.

Acho que fui bom pra ti neste ponto: te vi feliz... Apesar da angústia da palavra não-dita que tanto te atormentou durante minha passagem pela tua vida, ela quase não faz sentido diante do que vinhas sofrendo.
Fui bom pra ti, acredito. Fui fundamental na tua construção como pessoa.
Creio que irás te lembrar de mim como o mês em que te entregaste a ti mesma, em que falaste mais do que nunca, em que quiseste compreender mais do mesmo e sem rotineiras desgraças. Fui o mês em que teu coração se manteve inquieto, apertado, ansioso pelas respostas que não tens como buscar e nem mesmo valem a pena, penso agora.
Deixa em Dezembro o que é de Dezembro. Oferece a Fevereiro o que é dele. A vida, o tempo, se dividem em pequenos pedacinhos para que possas também te dividir em pequenas alegrias e angústias. E com isso esquecer certas palavras, pessoas, satisfações passageiras, tristezas voláteis.
Daqui a pouco já não existo. Gostaria, sim, de poder levar comigo essas coisas que ainda te enfeitam o coração ao mesmo tempo que o enxovalham. Mas percebo que não posso, que ainda estão lá e de alguma forma nem mesmo tu podes fazer algo quanto a isso. Há coisas que não nos pertencem, embora estejam em nós.
Vou-me sem te responder as questões mais importantes que deixei no ar. E das tantas conjecturas que as noites insones te trouxeram, te aconselho que marques todas as alternativas anteriores e deixe estar. Fevereiro chega já, é carnaval, aproveite pra bailar.
Apenas te digo, e com toda certeza, que por onde passas te estendem tapetes vermelhos: não te contentes com capachos desfiados.
Não esqueças de mim e do que te ensinei.
Adeus.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Regalos poéticos

Inspiração é coisa que surge na despedida ou no encontro. Para mim, ao menos.
A minha brotou ainda na primavera, depois de um encontro que me mostrou novamente as possibilidades do querer bem. Mas foi na despedida - no até logo que se estendeu ao medonho  adeus - que ela veio forte e capaz de desabrochar rimas. 
E foi o que restou: alguns versos. Tantas palavras para digerir a compreensão do não. O não que anunciei diante de um vislumbre negativo sobre o que sentia, foi o mesmo ratificado pelo tempo e sustentado pela ausência, pela exclusão, pelo padecer do que poderia ter sido. 
Falo demais, escrevo demais, demais extrapolo - deve ser a tal intensidade do inevitável. E nisso consiste minha beleza para quem aprecia transbordamentos. Não era o caso, creio. De qualquer forma, ainda acredito que é melhor confessar do que explodir em quereres. Não sou delicada ao dizer sentimentos: digo-os porque necessito e faz parte dos instintos que carrego. Há de alguém admirar. Um dia.

O verão segue. Finda esta inspiração em nome de novas. Página virada.
Sem tristeza, só gratidão pela vivência. Não há o que lamentar, a vida não é para doer. Bacana é transformar. E seguir. 

Aqui as coloco em ordem cronológica inversa, da última à primeira. Antes, porém, uma reflexão acerca da coisa toda.

***

Dezembro foi o mês em que descobri que é possível ainda se encantar com as pessoas, seus sorrisos, palavras precisas, versos desconcertantes, ideias bonitas, cabelos sem rumo, olhos de estrelas, beijos de cetim, mãos singelas, bailares que voam, corpos que encaixam...
E que tudo é tão novo de novo que causa a estranheza da primeira vez.
E isso apavora de tal forma que se sente como há vinte anos atrás e se age como a vinte anos a frente.
É o choque de quem não acreditava mais. É o renascer pro afeto.
E seria bom saber lidar, mas o tempo faz desaprender certas artes, desaprender as palavras, desaprender os horizontes.
Entro 2015 certa de que é possível, de novo, querer bem. Não entro certa de que saberei executar tal coisa na prática.
E que a vida continue seu leve trajeto até o infinito sem o peso do passado e da perspectiva de um futuro baseado em infelicidades de outrora.
A vida é isso: eterno encontro e desencontro, eterno fluir pro desconhecido.
Calo-me, satisfeita.
[25/12/2014]

*****

Para ti e teus olhos de estrelas

Recaída

Tomei mais um
gole de afeto
e não resisti
tomar outro:
recaí!

Prometi:
nunca mais
poesia pra ti!

Não venci:
recaí!
[15/12/2015]

*****

Quinta

Mudar as esquinas
parece sensato
em noites assim.
Permitir novos ares
cheiros, neblinas...
Criar para mim
incertas rotinas.

Parece mais sábio
guardar a vontade
Escorrer pela vida
Sem dó nem porém
Pegar o astrolábio
medir as estrelas
navegar para além.

Melhor não te ver.
 [15/01/2015]

*****

Dieta

Diminuir o açúcar das palavras
Driblar a fome de expressão
Mastigar devagar o desejo de dizer.

Eliminar os excessos de ins-pirações
Cozinhar no vapor as lembranças
Enganar as borboletas do estômago.

Economizar no sal que cai dos olhos
Degustar mínimas porções do querer
Beliscar a realidade a cada três horas.

E, assim, disciplinadamente conseguir
Reduzir as medidas da intensidade
Desinchar o sentimento insistente
Emagrecer o poetar para ti, enfim.
 [12/01/2015]

*****

Antes da meia-noite, pôr fim

Fazem hoje trinta dias
E maravilhoso seria
Ver nossas pipas no céu.

Perdemos nosso momento
Entre Chico e Manoel
Entre Julieta e Pessoa
Entre um copo e a lagoa.
Na dança, um peito só
clareava as promessas
de pasteis e borboletas.
Se eu fosse [be]atriz
manteria em segredo
mas, quiçá, sou como Elis
dividi todos meus medos.
Mostrei a ti meu talento
pra transformar bonitezas
em existenciais tormentos.
Rasguei a possibilidade
de maior intensidade
ao despir as agonias.
Tuas mechas num relicário,
Nosso apreço tão precário
Transbordado em elegias.
[10/01/2015]

*****

Prendas domésticas

Faço um bordado com versos
E com linhas de não-entender
Coso alguns panos de prato.

Enxugo os laços desfeitos
Enfeito prateleiras de espera
Com um quase artesanato.

Tiro o pó do querer bem
Dobro sonhos amassados
Guardo na gaveta do adeus.

Abro a cortina dos olhos
Envernizo a mobília da alma
Limpo o chão dos passos teus.
 [09/01/2015]

*****

Dos versos que te fiz

Restou a falta de rima
a palavra no nada
o desvio da estrofe

Restou o céu lá encima
a estrela parada
e a lua que sofre

Restou o desbaste da lima
e a ferida sangrada
guardada em um cofre.
 [07/01/2015]

*****

Você passa
na linha do tempo
Eu acho graça
Sorrio e aguento

Você cala
e eu invento
longas falas
sem cabimento

Você passa,
passa o tempo
pelas praças
me reinvento
 [07/01/2015]

*****

Anatomia doentia
trocar os pés
pelas mãos
sem anestesia
 [07/01/2015]

*****

+ coração
- cabeção
 [06/01/2015]

*****

sobre curtidas

pequenos carinhos
singelos afagos
sensíveis delícias
discretos apreços
?
prefiro abraços.
 [30/12/2014]

*****

uma semana de silêncio
tempo suficiente pra
compreender que não.
 [28/12/2014]

*****

Tarefa difícil que me destinas:
Não sei superficializar gostares.
Nunca fui ser da superfície.
Resido nas profundezas.
 [22/12/2014]
Não mais me comovem tragédias coletivas
Há tempos não acompanho tais notícias
Não me serve saber de mortes humanas
Tenho desejado a ilusão alienada das delícias

Queria ser passarinho e pousar onde fosse cantar
Então voar novamente e achar lugar para meu canto
E depois de outro canto, outro ponto para descansar.

E se um gato viesse cumprir sua instintiva razão
de felino frente a pássaro viajante, eu nada faria
e o destino simplesmente a profecia cumpriria.


Sem noticiário, sem flash, sem mídia, sem jornal
Só o vai e vem do que entendo como vida
Só o mínimo existir como ordem natural.

Facebook. a poesia

No que eu estou pensando
Pergunta o inquisidor
Dizendo a verdade não ando
Desculpe-me, nobre senhor.

Invente, não há problema!
Diz-me o amado carrasco.
Informe tudo em uma cena,
Misture tudo em um frasco!

Sabes bem, meu caro amigo,
Já não ouso lhe esconder:
Nem tudo que penso, digo
Nem tudo é de dizer

Para agradá-lo, no entanto
Digo tudo que te anima
E assim, como um encanto
Vou te embaçando a retina.

Eu penso no passarinho
Que agora a noite abraça
Ele constrói os seus ninhos,
Espalha sons aonde passa

E penso no pensador
Nas suas frases certeiras
Em imagens multicor
Que seduzem de primeira

Meu pensamento também
Passeia pelo jornal
Igualdade muito aquém
Do que seria normal

Sei que tudo isso te agrada
E esse é teu alimento
Porém, a verdade é sagrada
E ela nem mesmo comento

Penso e não lhe aviso
Disfarço pra compensar
Imprimo um grande sorriso
Dou formas ao caminhar

Digo-lhe o que quiser
Divido tudo o que digo
Admiro o que puder
Ignoro o sem sentido


E assim vamos mantendo
Esta farsa masoquista
Me perguntas o que penso
Te dou só algumas pistas.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Facílimo


Poemas de amor são bem fáceis:
Saem aos montes e sem esforços
Moldam
No papel, com a caneta
Na tela, com o  teclado
Toda uma série de desventuras
Ou felicidades
Normalmente, dores
São mais inspiradoras...
E se passar do amor egoísta
Este que só diz respeito a mim
Esse que ninguém comigo divide
por desconhecer ou por não
querer se comprometer
Se passar a pensar em como
as coisas estão difíceis por aí
Que os outros também tem suas dores
Seu salário de merda
Suas dúvidas entre os sonhos e as fomes
De comida, teto, transporte, roupas
Se parar pra pensar na crise do capitalismo
E tudo o que teremos que passar pra chegar lá
Num lugar-coisa-estado que nem sei se valerá
Se pensar
Na dura vivencia do faminto
Do celibatário
Do doente
Do atormentado
Do televiciado
Do televisionado
Se eu parar pra pensar
Que pessoas vivem não pelas outras
Mas das outras
Que a exploração chegou a tal ponto
Que eu só como se eu tenho
Que eu só vivo se não for
Nada que atrapalhe os planos
daqueles que vivem de mim
Se eu parar pra pensar nisso tudo
E escrever sobre tudo
Não haveria papel, tela, caneta, teclado
Não haveria nada
Capaz de comportar a dor.
Por isso que digo
São mais fáceis os poemas de amor.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Aquática


É o vidro do aquário, olha!
Há borbulhas por aqui...
Flutuas, charlas
O tronco esguio, a mão ágil...
E no transparente do aquário
Caminhos que se encontram
Antigos bisquis trincados
Cola forte pra reconstruir.
No cheiro do café aquático
Lembrança do que não veio
E eu no meio
Do que queria ter
Te vi.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Trapiche

Ela estava lá. O cabelo rebolando no vento forte do inverno. Esperava por ele havia alguns anos. Digo: naquela manhã a espera durava apenas alguns minutos, mas já há alguns anos, quase todos os dias esperava na ponta do trapiche.  Invadindo a lagoa, esperava por ele e por seus cabelos que iam diminuindo de exuberância e volume a cada dia. Não se importava com isso.
Ele e seus passos lentos. Como aquele homem que andava sobre as águas, andava ele também. Sobre uma planície de madeira, a seu modo, ele também andava sobra as águas. E a via, de costas, cabelos rebolantes. Próximo dela se sentia mais ele. Ela lhe permitia isso.
Ainda sem o olhar, mas percebendo sua presença, ela disse e sua voz assobiou como o vento frio:
-Queria ser um peixe.
Ele não pode deixar de lembrar de uma música popular qualquer  que também dizia isso. Riu-se:
-Por que dizes isso?
-Peixes não amam.
Aproximou-se por trás e enlaçou seus ombros em um abraço.
- Como sabes?
- Sei lá.
E virou-se. Olharam-se.
- Pra mim, és uma sereia.
- Sereias não existem.
Sorriu. Ele viu um sorriso triste. Anos a fio, amor feito às pressas, sobre as tábuas geladas, chuva ou sol, ali estavam todas as manhãs. Pela manhã era mais fácil disfarçar. Agora isso já não bastava. Faltavam os passeios entre os outros, o título de propriedade, a prole.
- Não importa, és minha sereia.
Tentou com isso desviar a atenção dela, que, já de costas novamente, olhava a lagoa que vomitava gotas em seus pés. As tábuas molhadas apodrecendo lentamente, assim como ela.
Desvenciliou-se repentina, porém lentamente. Tirou o casaco.
-Segura.
Ele não entendeu, o frio era grande, cortava. Ela, sem nada por baixo, dorso nu. Deixou uma pesada saia de veludo negro deslizar.
- Estás louca?
Pulou. A água gemeu.
-Se me amas como dizes, pula!
Apressado, ele tirou a roupa, muitas roupas e atirou-se.
Desapareceram.  A lagoa que tantas vezes presenciou o amor apressado os acolheu em suas águas frias.
O carro permaneceu estacionado a alguns metros da orla. As roupas espalhadas quase na ponta do trapiche, quase dentro da lagoa, mas acima dela.
Corpos nunca encontrados.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Éramos - da poesia à música

Éramos*

Éramos nós,
éramos mesmo só nós dois
Éramos um
e se era um só, era nenhum
E era assim
um mundo inteiro só pra nós
e mais ninguém

Éramos nus
na nossa nudez libertina
Éramos uns
que vivem livres cada sina
E era assim,
como beber cachaça fina,
a nossa paixão

Éramos sim
mil foliões no carnaval
Éramos fim
quando o cansaço era fatal
E era assim
sempre uma festa habitual,
nunca de cinzas

Éramos cio,
noites adentro sem parar
Éramos rio
fluindo em direção ao mar
E era assim
eterno e perfeito gozar
o nosso amor

Éramos mais,
éramos fome, éramos paz
Éramos cais
éramos sorte, éramos az
E era assim
nunca sequer olhar pra trás
Éramos nós

Não sei dizer
quem disse o primeiro adeus
Mas se existe
coisa q eu possa chamar deus
ela é que insiste
em abrir meus olhos para que eu
esqueça os teus.

*Esta é a poesia que escrevi e que mostrei a Janete Flores, que a musicou e a letra ficou, então com música, assim: